HISTÓRIA DE AMOR
Para poder falar de amor,
eu teria que ter amado.
Teria que ter vivido
alguma paixão intensa
que faz virar a cabeça!
Passar as noites em claro,
sorrir feliz, falar sozinha
atropelando o tempo,
saltando os obstáculos
para ver chegar depressa
o dia, a música, o encontro.
Para saber falar de amor
com certa propriedade,
eu teria que ter sofrido,
quando, depois dos encontros
viesse um desencontro.
Nele, o amor partiria
sem a palavra adeus,
conforme o prenunciado,
não gostar de despedidas.
E eu, me esvaindo em pranto
em silêncio pelos cantos,
por uma semana inteira.
Eu poderia até imaginar
que após a sua partida,
feito louca eu pensasse,
"melhor tivesse morrido,
pra não ver morrer o amor".
Porque o triste do amor
deve ser o esquecimento:
a hora do sentimento
ir saindo devagar,
deixando no seu lugar
um vazio, um coração
feito casa abandonada,
feito planta no deserto.
Na minha percepção ,
após um mês da partida,
séculos haveriam se passado.
E, se do nada, o mesmo amor
voltasse assim de repente
tentando reavivar a chama,
não me reconheceria
na casa redecorada,
na alegria forçada
(escondida a cicatriz).
Desse modo, algum dia,
nas páginas da saudade
uma história eu contaria.