POEIRA DO TEMPO
No meu tempo de infância, criança não entrava em conversa de adultos. Visita era recebida na sala, com cerimônia. Minha mãe servia o café no aparelho de louça antigo, herança de família que saía da cristaleira somente em ocasiões especiais.
Eram vizinhos, os que vinham para uma boa prosa após um dia longo e cansativo.
Toda manhã, os operários saíam cedinho rumo à Siderúrgica, onde trabalhavam para prover o sustento das famílias. Ao Pôr do sol, regressavam exaustos. Caminhavam em grupos, comentando coisas de rotina.
A lida das donas de casa começava tão logo seus companheiros saíam para o trabalho. As trilhas estreitas e escorregadias que davam acesso às nascentes, eram percorridas dezenas de vezes. Lá se lavavam roupas e vasilhas. De lá se transportava a água utilizada nos serviços domésticos. Gotas do precioso líquido iam salpicando o caminho, enquanto as latas equilibradas nas cabeças oscilavam ao ritmo dos passos das mulheres. Apesar de toda a faina, elas sempre arranjavam tempo para atualizar os fatos do bairro, ora durante os encontros na bica, ora através das cercas de bambu que dividiam os quintais. No bairro recém-povoado e um tanto isolado do centro da cidade, a vizinhança mantinha certa distância enquanto se estudava, avançando cautelosamente pelo território das diferenças para construir aos poucos a arte da convivência. Ao passo que a desconfiança diminuía, cresciam as intimidades e com elas a inconveniência. Vez por outra, aconteciam desentendimentos gerados mais por ciúmes de uma vizinha dar mais atenção à outra, que por incompatibilidadede ideias. Os burburinhos sempre resultavam em rixas com agressões verbais e até palavreado impróprio. Havia sim, uma disputa de território no campo da “amizade” entre as mais exacerbadas. Felizmente a maioria cuidava de viver amistosamente. Minha mãe era um exemplo.
Nesse cenário de fim de mundo ou começo de tudo, nossa vida era brincar. Tínhamos Direito Adquirido e a regra era sermos obedientes, realizando tarefas como olhar o irmão mais novo, ou varrer o terreiro, ou tratar das galinhas, ou regar as plantas. Famílias numerosas, uma tarefa para cada criança. Depois, era só diversão e algazarra. Falo de um tempo em que não tínhamos idade para frequentar escola, que era a partir dos sete anos.
À tardinha, o movimento cessava. Minha família costumava reunir-se após o jantar para ouvir programas musicais no rádio e relaxar antes de rezar para dormir. Embora não tenha havido nenhuma convenção oficial, a comunidade concordara que esse era o momento propício para as visitações. Tão logo chegavam já se despediam, para não causar incômodo. Tiravam a poeira do corpo com água trazida da bica. Trocavam a roupa do dia pelo vestido novo, pelas calças limpas. Aproximavam-se solenes, batiam na porta. Valente sempre reservava os latidos para a madrugada, quando os vultos da noite escura se tornavam ameaçadores. Com humanos, não via perigo. Ele se levantava sem pressa do aconchego de sua cama no cantinho do jardim, espreguiçava, e caminhava até os fundos da casa para, com sua presença, nos avisar dos visitantes. Depois voltava para o posto de vigia e continuava a cochilar…
Papai abria a porta, seguido por mamãe.
– Boa noite, compadre!
– Boa noite, comadre!
– Com’vai, compadre?
– Bem, como Deus é servido!
– E o senhor, como vai com sua família?
– Tamos aí! Mas vão entrando, vão sentando!
Eles entravam se sentavam ao redor da mesa. As crianças exibiam laços de fita nos cabelos penteados e olhos curiosos que não se demoravam abertos, no embalo do colo dos pais. “Nada de sair a bagunçar casa dos outros!”
Feitas as atualizações do cotidiano, a conversa seguia outro rumo. Geralmente chegavam mais vizinhos para integrar o grupo. Da cozinha, vinham banquetas e tamboretes quando as cadeiras não eram suficientes. O discurso casual e vulgar que enchera de alarido o dia agitado, vinha agora de página nova, revestido de seriedade. As vozes ganhavam uma entonação grave. A linguagem era simples, mas evidenciava uma cultura secular e diversificada, que evoluía enquanto perpassava de geração a geração.
Eu permanecia meio invisível, calada. Assim aprendi as primeiras lições de Sociologia, Filosofia, Economia, Ética, História do Brasil. Ouvi comentários sobre a Política do Governo, a Ditadura, o Golpe Militar, a Carestia, Meu Deus!
Pronto!
Notando minha presença, mamãe ordenava que eu me retirasse da sala, baixavam o tom de voz. Eu pulava da cadeira, emburrada, fazendo bico. Dirigia-me para o quarto, trancava a porta e, colando meu ouvido na parede, continuava a escutar. Pedaços de palavras aqui, frases interrompidas ali, sussurros acolá…
As reuniões geralmente traziam informações cujo teor eu ainda não entendia, mas minha memória as dividia e classificava em úteis, para serem usadas no futuro e inúteis, para serem descartadas. Úteis para mim eram os assuntos proibidos. Eram os que mais me atraíam. Seus mistérios iam formando símbolos e imagens fantásticas na minha mente, povoando meu pensamento com ideias tontas, forçando-me finalmente a indagar qual o sentido de tudo aquilo. Como aquela palavra nova que fez com que minha mãe me expulsasse da sala. No dia seguinte, eu me aproximei quando ela guardava a louça usada com os visitantes. Fazendo rodeios, demorei um tempo desenhando com o dedo sobre o pó da cristaleira. Entao, perguntei casualmente:
– Mamãe, o que é carestia?
Ela se empertigou, tomada de surpresa.
– Menina, eu não te falei para não prestar atenção em conversa de adultos?! Anda, vai brincar, como todo mundo!
Não me dei por vencida. Contornei a mesa:
– Papai, o que é carestia?
Com ele falávamos mais alto, porque um inseto havia entrado em seu ouvido quando menino, perfurando seu tímpano (eu falava pântano); e ele passou a escutar só um pouquinho. Escutava pouco, mas ouvia muito e sabia de tudo. Atencioso, meu pai interrompeu a leitura. Fechou o livro, marcando a página com o indicador direito e, franzindo a testa, começou a me explicar que se tratava da crise econômica que gerava um encarecimento do custo de vida. Em outras palavras, o salário que recebia se tornara insuficiente para saldar as dívidas junto à Cooperativa fornecedora de alimentos e outros víveres; e ainda havia a prestação da casa para aumentar as despesas. Nesse momento eu juntei os fragmentos colhidos em minhas escutas e constatei o que já vinha suspeitando: carestia era um monstro faminto que devorava tudo o que via pela frente. Vinha percorrendo o mundo numa locomotiva escura que transportava vestígios da guerra. Mamãe, sábia, percebeu na hora a minha cara de espanto. Sei disso porque captei o comunicado silencioso que ela enviou e que papai apanhou no ar. Na verdade, foi só um pequeno gesto e expressão facial, mas teve o poder de fazer com que ele retomasse a leitura, impedindo-me de continuar com o interrogatório.
Na medida em que a vida me amadurecia, comecei a ter ciência do introspectivo. Adquiri a compreensão de que, na ausência de palavras, os gestos e olhares também falam. Mas, como adivinhar o subjetivo? Por mais que eu tentasse, jamais consegui traduzir um olhar abstrato. Como o de meu pai, quando o mesmo permanecia horas a cismar, contemplando o nada através da moldura da janela: seus olhos claros buscando a luz do fim de tarde muito além, onde o perfil dos montes revelava um horizonte de incertezas! Como aquela luz fugidia eu o via distanciar-se de tudo, de mim, tornando-se inalcançável. Nisso ele me pegou! Sem som, sem possibilidades para inferências e deduções, sem sussurros na sala, nem ruído através das paredes do quarto trancado. Isso sim, era mais que segredo! Era o silêncio da alma! Sentada ao seu lado, eu percorria a mesma distância na vã tentativa de descobrir aonde iam ou de onde vinham seus pensamentos. Entretanto, o que a paisagem me oferecia era a imagem em miniatura de um tropeiro solitário a conduzir sua tropa através da trilha da montanha da cratera. Seus cavalinhos desciam o morro, certamente sustentando balaios carregados com lenha a ser entregue na carvoaria da usina. O devaneio me levava a imaginar que eles desapareceriam na escuridão da noite. Seriam tragados para o fundo da cratera, levados pela enxurrada da chuva torrencial. Os relâmpagos já riscavam o céu e nuvens pesadas vinham se desenrolando. Quando a tempestade desabasse, eu estaria no aconchego de minha casa. Lá fora, o vento subjugaria os enormes eucaliptos a dançarem malucos, inclinando-os ameaçadoramente sobre os telhados das casas. A luz se apagaria. Papai tatearia até a cozinha e voltaria com a lamparina acesa. Mamãe se ajoelharia no chão de madeira crua e nós imitaríamos. Em meio às trovoadas, seus lábios clamariam por socorro: “São Jerônimo, Santa Bárbara, acalmai a tempestade!” Mas, voltando à paz do entardecer, quem sabe meu pai pensasse algo como a enchente das goiabas? Nas gabirobas e araçás do campo? Sonharia em ir morar sozinho numa cabana à beira do rio? Em pescar o maior dourado para pendurar sua cabeça na parede como um troféu? Ou só estaria se maravilhando com o cenário? Eu perscrutava inutilmente.
“Pai, como foi que o senhor pescou aquele jundiá enorme”? Eu sabia como trazê-lo de volta. Papai sorria, erguia-se da cadeira, fechava a janela para impedir a entrada das mariposas; virava a chave do fio que pendia do teto e sustentava a lâmpada, acendendo a luz da sala e voltava a sentar-se. Brilho novo no olhar. “Ah! Essa foi mesmo uma boa pescaria…” E a narrativa unia minha família, que até então era composta por papai, mamãe, Célia, Marília e eu.
Afora as conversas das vizinhas, os discursos das visitas, as prosas dos compadres, era na redoma do meu lar que as palavras se perpetuaram para a construção da vida. Algumas eram intempestivas e ameaçadoras. Outras eram suaves como sussurros e soavam como músicas. Havia choros e gargalhadas, gritos e cantilenas no interior da minha humilde e rica moradia. Havia ainda aqueles momentos em que o falar se tornava desnecessário, bastando estarmos juntos, sentindo as tênues vibrações da alma. Nesses momentos, só minha mãe interrompia o silêncio, para dizer baixinho que os anjos estavam passando.
Passavam anjos…
(Crônica lírica) 09/06/2020