Zaira Belintani
Há que se trabalhar alma, corpo e mente, respirar fundo, ouvir a voz do coração.
Textos
DIÁLOGO DAS MÃOS
Deus nos deu a forma e a medida certas
Para conhecermos do amor o segredo
De amenizar a solidão, o ódio, o medo
Nas decepções das horas mais desertas.  
 
Estando sempre abertas, podemos cuidar,
De agasalhar os corações que sentem frio,
De iluminar no mundo o espaço sombrio
E com gesto concreto o amor cultivar.  
 
Mas, sejamos leves e sempre pequenas.
Somente sendo humilde é que se pode amar
E subir os degraus da escala de valor.  
 
Pois são muito mais que simples mãos apenas
Aquelas que, nuas, conseguem se doar
E aquelas que, nuas, prosseguem sem a dor.  
 
Setembro de 1977.  
 
Sobre o Soneto:
Revirando um baú antigo, encontrei um caderno amarelado pelo tempo e dentro dele alguns rabiscos poéticos. Fiquei um minuto folheando até que um soneto chamou-me a atenção. Interessante como a lembrança pode nos transportar ao passado, reavivando momentos já empoeirados no arquivo da memória. A pretensa poesia trouxe-me a imagem do professor Bastos, discursando enquanto caminhava entre as fileiras de cadeiras: “Sonetto tem origem italiana - pequena canção ou pequeno som. Trata-se de um poema constituído de quatro estrofes, sendo as duas primeiras com quatro versos e as duas últimas com três. Cada verso tem dez ou doze sílabas: Decassílabos ou Duodecassílabos...” Tive o privilégio de ser aluna do ilustre Poeta, Advogado, Escritor, Musicista, Artista Plástico, Cineasta e pessoa incrível, Sr. José Bastos Bittencourt. Suas lições iam além da Comunicação em Língua Portuguesa, da Música e da Literatura. Iam, aliás, muito além da sala de aula. Na época, ele produziu o filme “A Maldição da Cata Branca”, documentário em que alguns colegas de minha classe atuaram. Mas voltando ao soneto, um dia o professor nos passou como tarefa, a criação de um poema. Eu queria caprichar. Na tarde de domingo, me recolhi absorta, sentada à sombra da laranjeira no sossego do quintal, um caderno no colo. O silêncio só era quebrado pelo farfalhar do vento nas folhas da bananeira e pelo canto dos pássaros ao redor. Raios de sol se infiltravam através das das folhas, desenhando sombras móveis no chão; formigas apressadas escalavam o tronco do abacateiro... Eu vagava pelos túneis do meu consciente e nada de poema. Após tentativas vãs e muitos papéis na lixeira, olhei minhas mãos inertes e desejei que adquirissem vida própria, pois meu cérebro dera de cochilar. Acho que elas me atenderam. Desembaraçaram as idéias, juntando finalmente as palavras, que por sua vez deram sentido às frases. Eis que saiu um soneto – duodecassílabo.
Zaira Belintani
Enviado por Zaira Belintani em 16/12/2020
Alterado em 17/12/2025
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