Noite madura, trilha estreita, matagal cerrado. Com um ruído cadenciado, o pescador ia, a passos largos, imprimindo pegadas com as botinas sobre as folhas úmidas do solo. Feixe de varas no ombro e mochila nas costas. Lanterna acesa na mão esquerda, o facho de luz abrindo caminho. Mão direita em alerta junto à bainha do facão presa ao cinto. Assim seguia José, rumo à sua casa, após passar a tarde na beira do rio. O céu agora era um farinheiro de estrelas. A nesga de lua nova surgindo ao longe na crista do morro, não servia de lume. "Bom mesmo é lua cheia, quando nenhuma sombra fica espreitando de baixo das moitas." A única iluminação natural vinha dos vaga-lumes riscando o espaço e sumindo na folhagem. Exposto aos perigos, José repetia em silêncio: "São Bento, água benta, Jesus Cristo no altar. Guardai estes caminhos para o filho de Deus passar."
Faltava ainda muito chão a percorrer. De repente, o pescador estacou. Teve a sensação de que não estava sozinho. Um clarão vinha de trás. Ele se virou na direção da luz, e se encostou no mato para dar passagem. Alguém ou algo estava parado a cerca de 20 passos. Parecia um farol de bicicleta, mas era maior e tinha a forma de um olho. Pensando em puxar conversa, o pescador disse gentilmente, “boa noite! Pode passar!”. O objeto não se moveu e não houve resposta. Mesmo sendo parcialmente surdo, José ouviria o som de uma voz a essa distância, dado à intensidade do silêncio ao redor. Ele sempre fora destemido, já passara por muitos apertos; mas aqui não sabia o que fazer. Tateou a cintura para pegar o facão, porém, justo nessa hora o fecho da bainha emperrou. Entre desistir e ficar tendando, ele optou por desistir e começou a correr. Não propriamente correr, para não demonstrar fragilidade, mas andou o mais depressa que pôde. Aos pulos, no peito, o coração quase saía pela boca.
Cerca de três minutos depois, o pescador parou. Aqui, a trilha se abria um pouco e o solo era pedregoso. Sem ter com que se defender, ele apanhou uma pedra de bom tamanho e esperou. A luz agora parecia mais próxima. José se afastou, ela se adiantou em sua direção. Sem se virar, ele deu mais alguns passos. O “olho cintilante” se aproximou mais. Não vendo outro recurso, o pescador mirou e, usando a força que o braço lhe permitia, atirou a pedra. Viu a luz se esfarelar em mil pedaços, que ficaram brilhando no chão. O que quer que fosse, levaria tempo para se recompor, se não tivesse “morrido”. José não ficou para conferir. Partiu rapidamente, as pernas falseando, a respiração ofegante. Ao descer a encosta da cratera, volta e meia ele olhava para trás, com cisma de estar sendo seguido. Só sentiu alívio quando avistou o casario ao longe. Um pequeno povoado perdido no meio do nada. Ali estava seu lar, era onde sua família o esperava. Finalmente, chegou em casa são e salvo.
Essa aventura se tornou mais uma história na voz do pescador, ele mesmo duvidando de sua veracidade ao relatar. Mas era fato! O tempo passou e o fenômeno não se repetiu, e nunca foi esclarecido.