Zaira Belintani
Há que se trabalhar alma, corpo e mente, respirar fundo, ouvir a voz do coração.
Textos

JOSÉ e a CALDEIRA

Na noite que antecedeu o fato que tornaria meu pai um herói e o levaria para o hospital, não necessariamente nessa ordem, eu sonhara com uma dezena de peixes sobrepostos na mesa da cozinha; eram enormes e seus olhos opacos denunciavam estado de decomposição. Sonhar com peixe morto, para mim, sempre foi prenúncio de catástrofe. No entanto, ao acordar, o dia oferecia tantas possibilidades que o pesadelo perdia sua importância. Eu tinha então, onze anos de idade. Ao voltar da escola, nesse dia, após terminar a lição de casa, reuni minhas irmãs mais novas para a hora da leitura, em que eu era a contadora de histórias.

O dia transcorria normal. Porém, no decorrer da tarde o tempo fechou. Literalmente. Começou com uma brisa que logo ganhou força de ventania, acumulando nuvens escuras ao lado poente, na cabeça da serra. Do meio de um redemoinho de folhas secas e poeira que se formou na rua, surgiu um homem desconhecido. Cerrando os olhos para protegê-los da areia suspensa no ar, ele parou diante do nosso portão. Bateu palmas, ao que minha mãe atendeu prontamente. Ocorreu um curto diálogo. Através da janela eu observei o semblante de D. Neuza passar de apreensivo a desesperado. O homem falou, gesticulou e se foi em seguida; ela entrou em casa.

— Meninas, tenho que sair agora! (trocava de vestido enquanto falava) — Seu pai sofreu um acidente na Usina e está no hospital! Prestem atenção: fiquem dentro de casa! Lídia e Isaura, olhem suas irmãs!

— Mas, mãe, o que aconteceu? Papai… — Ela já saía, apressada. Eu tentei acompanhá-la, mas em poucos segundos ela ia longe e desapareceu na esquina na rua. Impetuosa, eu jamais poderia ficar ali parada, sem saber de papai. Éramos em cinco, as filhas. Negociei com Lídia, a mais velha e ela concordou em ficar com Marília e Ita, desde que eu levasse Luciana comigo. Trato feito!

Se andássemos depressa, chegaríamos ao hospital em menos de vinte minutos. Passávamos em frente ao colégio Industrial, quando uma rajada intensa de vento virou nosso guarda-chuva, quebrando-o. Leve como uma pluma, eu senti medo de ser levada para o espaço, então me abracei ao poste mais próximo. Agarrada à minha saia, uma criança de cinco anos de idade, trêmula, os cabelos em desalinho e o olhar em pânico. Para piorar a situação, um relâmpago estalou bem próximo, um cabo da rede elétrica se rompeu e ficou balançando e soltando fagulhas ao nosso lado. Segurei minha irmã pela mão, atravessamos para alcançar a calçada oposta e prosseguimos correndo, sem perceber que o vento estava diminuindo e as poucas gotas grossas de chuva mal nos atingiam. Quando chegarmos ao nosso destino, o tempo sossegara.

Chegar ao hospital foi fácil. Entrar, aí era outra história: eu estava ciente de que não se permitiam visitas de crianças.

Atualmente, todas as portarias do hospital ficam na face oeste do prédio, onde a rua é plana, facilitando o acesso. Porém, naquele tempo, a única entrada ficava no lado oposto, onde há uma escadaria (agora inativa) com balaústres nas laterais, ostentando no alto uma estátua de São Vicente de Paulo.

Para nossa sorte, não havia vigilância. Fomos entrando e seguimos com naturalidade. Passamos pela sala de espera de exames. Algumas mulheres que ali conversavam, pareciam muito importantes para notarem duas meninas simples de mãos dadas e com roupas surradas. Invisíveis. Isso era bom. O corredor da enfermaria estava deserto. Na terceira porta à esquerda, vimos minha mãe ao lado de uma cama sobre a qual uma figura estranha se reclinava. Seu rosto, mãos, braços e tórax, estavam envolvidos por ataduras de gaze bem fina, deixando transparecer bolhas arroxeadas sobre a pele. Os cabelos, levemente chamuscados, eram lisos e pretos, e neles reconheci meu pai! No meu íntimo não pude deixar de compará-lo à imagem de uma múmia que vira na revista Seleções. Sabe, essas ideias que surgem e das quais nos livramos imediatamente, envergonhados. Ele e mamãe se surpreenderam com nossa presença, mas tão ficaram bravos comigo.

— Pai, o que aconteceu com o senhor?

Meu sonho agora estava explicado, pensei, enquanto o ouvia contar sobre o acidente em palavras mal articuladas devido ao curativo, que limitava o movimento de seus lábios. O operário José relatou:

— Eu estava na minha banca, quando ouvi a sirene tocar, mas ainda era cedo para encerrar o expediente. Uma multidão de operários veio correndo e gritando para evacuarmos o local, pois a caldeira do alto-forno estava prestes a explodir. Eram forneiros, caldeireiros, lingoteiros e todos os outros colegas se atropelando para alcançar a saída. Eu não tive tempo para pensar. Deixei as ferramentas sobre a banca e comecei correr, só que em sentido contrário. Alguns colegas tentaram me impedir, mas eu os afastei. Corri por cerca de 500 metros até chegar ao pátio, que já se encontrava deserto. Ao atravessá-lo, uma sensação de urgência e medo me acompanhavam. Medo de não chegar a tempo e de não sair com vida. À medida que eu me aproximava, o calor aumentava e uma espécie de assobio vinha daquela direção. Entrei no compartimento. Lá estava ela, enorme e velha caldeira a me desafiar. Peguei uns trapos de estopa, sabendo que as luvas não seriam suficientes. No momento em eu que me aproximei, a ela emitia um calor insuportável. Protegendo meu rosto com braço, rapidamente girei a válvula na direção anti-horária. Cheguei a ver os números do manômetro começando a baixar. A pressão diminuía, enquanto o vapor se espalhava no ambiente! Corri de volta ao pátio e não vi mais nada. Agora estou aqui a salvo e o importante – caldeira já esfriou.

Uma explosão (não me acode outra palavra!) de emoções me invadiu. Nessa hora eu não pude avaliar, mas na medida em que entendia, mais eu me orgulhava! José – meu pai – o operário, transformou-se em herói, ao evitar uma catástrofe imensurável!

Algum tempo depois, já recuperado, meu pai retornou ao trabalho. Na minha concepção de valores, ele deveria ter sido homenageado com festas, medalhas, etc. Posteriormente, ouvi dizer que o Gerente-geral da Siderúrgica, Coronel de “Tal”, dirigiu-se à sua banca para cumprimentá-lo. E foi só! Página virada, que o tempo tratou de apagar até para os colegas e os mais chegados. José, o operário de vida humilde, confessou que não fazia questão de honrarias, no que ele nos enganou. Pois desse fogo surgira um outro homem, com consciência de herói e centelha no olhar. Ele jamais alardeou. Há coisas que só servem para ser sentidas, ou perdem a sua essência.

Diferentemente das histórias de pescador que José tinha prazer em repetir a tantos quantos lhe emprestassem ouvidos, ele mencionou o acidente da caldeira apenas uma vez, na enfermaria de um hospital, tendo três pessoas como ouvintes.

Zaira Belintani
Enviado por Zaira Belintani em 14/05/2026
Alterado em 19/05/2026
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